sábado, 27 de fevereiro de 2010

A velha e a nova cruz

Sem ser anunciada, e sorrateira, apareceu nos círculos evangélicos nesses tempos modernos uma nova cruz . É como se fosse a velha cruz, mas é diferente: a semelhança é superficial; as diferenças, fundamentais.

 
Desta nova cruz brotou uma nova filosofia da vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica - um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma língua que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e não enfatiza como antes.


A velha cruz não fazia barganhas com o mundo. Para a carne orgulhosa de Adão ela significou o fim da jornada. pois ela executava a sentença da Lei do Sinai. A nova cruz não causa nenhuma oposição à raça humana; mas sim é uma companheira amigável, e se entendermos corretamente, ela é a fonte de bom divertimento e gozo inocente. Ela deixa Adão viver e sem qualquer interferência. A sua motivação na vida é inalterada; ele ainda vive para o seu próprio prazer só que agora ele se deleita em cantar coros evangélicos e assistir filmes religiosos em vez de cantar canções obscenas e beber bebidas alcoólicas fortes. A tônica ainda está no prazer, embora a diversão está agora em um plano moralmente mais elevado , se não intelectual.


A nova cruz estimula uma nova abordagem evangelística completamente diferente. O evangelista não exige a renúncia da velha vida antes que a nova vida possa ser recebida. Ele não prega contrastes mas semelhanças. Ele procura a chave para o interesse público, mostrando que o cristianismo não faz exigências desagradáveis, pelo contrário, ele oferece a mesma coisa que o mundo oferece, apenas em um nível mais elevado. Seja lá o que for que o mundo enlouquecido e pecador estiver querendo no momento, é habilmente percebida ser a mesma coisa que o evangelho oferece , só que o produto religioso é melhor.


A nova cruz não mata o pecador, ela o redireciona. Ela o engrena em uma forma mais limpa e mais alegre de viver e salva a sua auto-estima. Para o arrogante ela diz: "Venha e mostre-se arrogante a favor de Cristo"; e declara ao egoísta: "Venha e vanglorie-se no Senhor". Para o que busca a emoção diz: "Venha e goze na emoção da fraternidade cristã". A mensagem cristã é inclinada na direção da moda corrente a fim de torná-la mais aceitável ao público.


A filosofia subjacente a este tipo de coisa pode ser sincera, mas sua sinceridade não deixa de ser falsa. É falsa porque é cega. Ela perde todo o significado da cruz.


A velha cruz é um símbolo da morte. Ela representa o fim repentino e violento de um ser humano. O homem na época romana, que tomou a sua cruz e que seguiu o caminho, já tinha dito adeus a seus amigos. Ele não mais voltaria. Ele estava indo para seu fim. A cruz não fazia acordos, não modificava nada e nada poupava; ela matava o homem por completo e para sempre. Ela não tentava se dar bem com sua vítima. Ela golpeava cruel e duramente, e quando tinha terminado o seu trabalho, o homem já não mais existia.


A raça de Adão está sob uma sentença de morte. Não existe comutação de pena nem fuga. Deus não pode aprovar os frutos do pecado, por mais inocente que possa parecer ou bonito aos olhos dos homens. Deus salva o indivíduo liquidando-o e, em seguida, o ressuscita novamente em novidade de vida.
O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os caminhos dos homens é falsa para com a Bíblia e cruel para com as almas de seus ouvintes. A fé de Cristo não tem paralelo no mundo, ela a divide. Ao vir para Cristo, nós não trazemos a nossa velha vida a um plano mais elevado, nós a deixamos na cruz. O grão de trigo deve cair no chão e morrer.


Nós que pregamos o envangelho, não devemos considerar-nos como agentes de relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. Nós não devemos imaginar que fomos comissionados para tornar Cristo aceitável ao grande negócio, a imprensa, o mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas, mas profetas, e a nossa mensagem não é um acordo, mas um ultimato.


Deus oferece vida, mas não uma vida velha aperfeiçoada. A vida que Ele oferece é vida que saiu da morte. Ela é erguida sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possuí-la deve passar pelo castigo. É preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentença de Deus contra ele.


O que isso significa para o indivíduo, para o homem condenado que quer encontrar a vida em Cristo Jesus? Como esta teologia pode ser traduzida em vida? Simplesmente, ele deve se arrepender e crer. Deve renunciar ao pecado e, depois, renunciar a si mesmo. Ele não deve encobrir nada, defender nada, desculpar nada; e nem tentar negociar um acordo com Deus, mas curvar-se para receber o golpe fatal da ira de Deus e reconhecer-se digno de morte.


Tendo feito isso, ele deve contemplar com sincera confiança o Salvador ressurreto, e d’Ele virão vida, renascimento, purificação e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus agora põe fim ao pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida juntamente com Cristo.
Para qualquer um que se oponha a este conceito ou consideram com um ponto de vista particular e estreito da verdade, deixe-me dizer que Deus colocou o seu selo de aprovação sobre esta mensagem desde os dias de Paulo até os dias de hoje. Quer sejam declaradas nestas exatas palavras ou não, isso tem sido o conteúdo de toda pregação que trouxe vida e poder ao mundo através dos séculos. Os místicos, os reformadores, os avivalistas, tem posto sua ênfase aqui, e sinais e prodígios e poderosas operações do Espírito Santo deram o testemunho da aprovação de Deus.


Ousaremos nós, os herdeiros desse legado de poder, adulterar a verdade? Ousaremos nós com nossos lápis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padrão que nos foi mostrado no monte? Que Deus nos livre. Vamos pregar a velha cruz e conheceremos o antigo poder.
A.W.TOZER (21 de abril de 1897 - 12 de maio de 1963)

*Tradução Fernando & Rose  - http://www.fernandoerose.blogspot.com/

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